livros bons para se morar

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Há 126 anos nascia numa fazenda em Taubaté (SP) uma criança que mudaria a vida de milhares de crianças, José Bento Monteiro Lobato. Sua importância para a literatura infantil em nosso país é tão grande que a data de seu aniversário foi escolhida para celebrar também o Dia Nacional do Livro Infantil. Embora tenha escrito uma importante obra literária para adultos, a grande realização pessoal de Lobato foi a produção de livros para crianças e o contato com as culturas infantis. Seu sonho pessoal era um dia escrever livros nos quais as crianças pudessem morar. Mais do que histórias e livros, Lobato criou um lugar maravilhoso por onde realidade e fantasia podem transitar, onde a imaginação encontra espaço para florescer e onde as crianças podem habitar: o Sítio do Picapau Amarelo.

A obra infantil de Monteiro Lobato revela grande respeito pela inteligência das crianças, pois toda a narrativa, as personagens e os conflitos ali presentes sugerem que as crianças podem pensar por si mesmas, tomar decisões, julgar valores, descobrir e discutir a realidade, o mundo em que vivem. Lobato veio propor uma concepção de infância diferente daquela na qual fora criado e que ainda imperava na sociedade brasileira. Para ele, a infância merecia literatura de melhor qualidade e educação mais relevante e desafiadora.

Além disso, Lobato também propôs uma literatura que estimulasse e contribuísse para a formação de leitores participativos e autônomos. No Sítio do Picapau Amarelo, as crianças não apenas ouvem histórias contadas por Dona Benta e Tia Nastácia, mas interrompem, comentam, criticam, interferem e recriam, de modo que a leitura passa a ser uma experiência criativa, quase uma nova escritura.

Como um corajoso empreendedor, Lobato não apenas escreveu textos em que o leitor fosse figura privilegiada, mas ele mesmo criou editoras, publicou livros, fez contatos por todo o país no sentido de criar uma rede de distribuição de livros. Ele acreditava que a formação de novos e competentes leitores era uma urgência nacional, pois, como ele mesmo disse certa vez, “um país se faz com homens e com livros”.

Em sua agenda de trabalho, Monteiro Lobato inseriu não apenas a criação de histórias originais, autorais, mas também a releitura dos clássicos da literatura universal, do folclore nacional e da cultura popular do seu tempo. Personagens de contos de fadas, seres lendários, como Peter Pan, Pinóquio, a pequena Alice (de Lewis Carroll), o Saci Pererê e Popeye visitam o Sítio e participam de aventuras com Pedrinho, Narizinho e Emília. Dessa forma, a cultura brasileira se faz não pela simples cópia de modelos estrangeiros, mas pela recriação seletiva e inteligente do que há de bom lá fora, sempre em diálogo com o outro.

Sem jamais limitar-se a objetivos meramente pedagógicos, a obra de Monteiro Lobato representa uma grande contribuição para a educação no Brasil, na medida em que promove a busca do conhecimento, o pensamento crítico, a experiência democrática e a defesa da liberdade de expressão. No Sítio, faz-se muita pesquisa científica, discute-se muito sobre astronomia, geografia, história, política, folclore, geologia e linguagem, tudo como muito senso de humor, criatividade e imaginação.

Neste dia tão especial, é preciso celebrar a memória daquele que fez livros nos quais as crianças podem morar e abriu espaço interior nas crianças, onde livros podem habitar.

quintana e os ateus

Lendo o livro Baú de Espantos, de Mário Quintana, topei com este poeminha:”Espantos”

Neste mundo de tantos espantos,
cheio das mágicas de Deus,
O que existe de mais sobrenatural
São os ateus…

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ressuscita-me

Ultimamente, tenho pensado muito na letra de uma antiga canção intitulada “O amor”. A letra foi escrita pelo famoso poeta russo do século XX, Wladimir Maiakovski, e a música foi composta por Caetano Veloso. A letra fala da chegada do amor como um momento de milagre e renovação da vida. Maiakovski foi um homem que viveu grandes e intensos conflitos em sua vida pessoal, amando uma mulher que jamais seria de fato sua, sonhando com uma sociedade em que a justiça e a igualdade fossem plenamente alcançadas, tentando fazer de sua arte um ato político. Desesperado, suicidou-se em 1930, com apenas 37 anos de idade.

De qualquer maneira, o grito de Maiakovski, que ecoa em Caetano, configura-se como um autêntico anseio por vida e ressurreição. É um desejo profundo de amor e reciprocidade que acabam presos na garganta do poeta. Nossos poetas clamam por vida, clamam por ressurreição, clamam por uma Páscoa que, no caso deles, parece ainda distante e inalcançável.

Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
eles a ressuscitarão
O século 30 vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida
Para que não mais exista amores servis
Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se por uma casa ou um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja, pelo menos, o universo
E a mãe
Seja, no mínimo, a terra
A terra, a terra

Eis a interpretação que Renato Braz desta canção:

homens no mar

Esta é uma das mais belas canções do poeta Glauber Plaça. Está no seu disco Homens no mar, trabalho muito bem produzido e que pode ser adquirido pelo site: http://www.buenaonda.com.br/html/trabalhos5.html. São 12 canções que falam de terras, mares e desertos, são salmos e orações, declarações de amor e gratidão a Deus pela vida, pela paz, pelo perdão.

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O Glauber deu uma bela entrevista ao programa Buena Onda. Confira no site: http://www.buenaonda.com.br/html/primeira_temporada.html

Segue a letra de “Homens no mar”:

sobe o clarão da lua
por trás do horizonte
coberto de estrelas
descem os homens descalços
que vão para os barcos na beira do mar

águas do cotidiano encobrem a esperança
os sonhos e os medos
mãos calejadas marcadas
por redes da vida no eterno pescar

vem madrugada sopra o vento
redes vazias peixes não há
faz alguns dias esquecimento
de uma promessa que o Mestre iria voltar

um novo dia já vem clareando
o Mestre na praia está a chamar
pede pra continuarem pescando
e novamente a rede lançar
e peixes irão encontrar

puxam a rede cheia
puxam a rede cheia e voltam para areia
puxam a rede cheia e voltam para areia pra comemorar
puxam a rede cheia e voltam para areia com o Mestre cear

Esta canção me faz lembrar a arte do grande pintor catarinense Telomar Florêncio (de Blumenau), que sabe como ninguém representar pescadores, barcos, peixes e mares.

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um tecelão e um tear

Eis aqui mais uma canção de Roberto Diamanso. Poesia pura.

Nós temos as linhas musicais
Eu tenho as cordas das minhas
Voz e viola

Se não encanto enquanto canto
E o que toco não te toca
A porção que me toca
É calar

Mas quando todas as linhas
Se engancham nos teus pontos
A ponto de te emocionar
Começa a se “delinearte”
De ambas as partes

Ficamos ao Deus dará
E Deus nos deu
Nos deu lã para a canção
Fez-nos de um só coração
Um tecelão e um tear

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conta comigo

Aqui vai uma velha canção. Ela foi gravada num CD comemorativo pela formatura da primeira turma de História da Unesc. O CD é uma raridade; quem tem, tem. Tem uma foto de uma criança ianomami na capa e leva o título Músicas e poemas: verdades que vi.

Uma cidade precisa de espaço preciso
De luz verdadeira, de chão repartido,
Por onde se encontrem o amor e o saber,
Um universo de gente que pinta o futuro
Na tela, no quadro, na cara, no muro,
Na face de tudo o que busca viver.

Conta comigo no sonho e na vida!
Conta comigo na mão estendida!
Conta comigo, que a história não pode esperar pelo trem.
Conta comigo, levanta a bandeira!
Conta comigo, sacode a poeira!
Conta comigo, que o tempo é de quem quer lutar por alguém.

Uma pessoa precisa de amor partilhado,
De pontes inteiras, caminho traçado,
Por onde circulem perdão e querer,
Uma floresta encantada de frutos e flores,
De trilhas abertas e diversas cores,
De aromas e cantos que fazem viver.


 
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dia de festa

O último final de semana foi de festa para mim. A Igreja Presbiteriana na Trindade recebeu a visita de Roberto Diamanso, América, Ariel, Glauber Plaça e Cris. Que maravilha. Muita música, muita reflexão, muito aprendizado, muita correria e muita comunhão. Na apresentação do sábado à noite, no Fé e Café, as canções do Diamanso e as do Glauber se encaixaram de modo impressionante. Não dava tempo nem de respirar, só para agradecer.

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joyful!

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Meu querido amigo Glauber está de CD novo. Trata-se do Joyful, um trabalho instrumental reunindo a sonoridade da flauta e do piano, o alento e o ritmo, o vento e as cordas. Tudo é gravado ao vivo, sem emendas, sem truques de estúdio. Tudo muito denso e verdadeiro. O CD se propõe a ser um diálogo entre piano e flauta, uma conversa, que começa com uma releitura de uma antiga canção medieval, “Greensleeves across a far horizon”, e faz citação ao tema, mas nos colocando sempre à distância, sempre a caminho em direção, quem sabe, ao horizonte. “Joyful” brinca com a nona sinfonia de Beethoven, numa interpretação meditativa em alguns momentos e intensa em outros. “Like a dove” começa com uma delicadeza deliciosa, sugerindo tom e atmosfera. Mas pouco a pouco vai alçando vôo. Se fecharmos os olhos, podemos ver o vôo da ave por sobre as praças, as torres das igrejas, por sobre os prédios da grande cidade. Há várias passagens muito variadas, como se o vôo nos levasse a diferentes lugares, diferentes paisagens. “Malacandra” tem um título misterioso que vem da obra ficcional de C.S. Lewis, é o planeta Marte. O tema se desenvolve calmamente, uma parada para olhar o espaço. “Breath” celebra o espírito da vida, a respiração que se torna som e sentimento no sopro da flauta, embora a primeira frase da música seja a do piano. A flauta entra como resposta, reagindo aos temas trazidos pelo piano. O ritmo da música se altera, passando a uma segunda fase em que a presença da flauta vai se tornando mais destacada. Outras variações transformam esta música numa peça bastante diversificada, complexa, num crescendo que desemboca num lago sonoro que leva ao final. “Words of the thunder” começa com a flauta parecendo anunciar um dia de sol, que vê o vendo chegando, carregando folhas, trazendo ritmos mais marcados pelo piano, até chegar uma mudança alegre e agitada marcada pelo som de um apito inusitado. Que surpresa! O ritmo vira um redemoinho, que leva à calmaria do final. “Faithful friend” é uma ode à amizade, tudo a ver com a proposta do disco.

Parabéns ao Glauber e ao Jack Urban por mais este presente.

asas da páscoa

A Páscoa vem chegando, eis aqui um belo poema de um poeta metafísico: George Herbert. Observe como seu poema é formalmente inovador. Você consegue imaginar o que estes versos desenham?

SENHOR, que criaste o homem em riqueza e bens,
embora ele tenha perdido tudo tolamente
decaindo mais e mais
até ele se tornar
mais pobre:
Contigo
deixa-me subir
como a cotovia, em harmonia,
e cantar neste dia tuas grandes vitórias:
Então minha queda alçará meu vôo em mim.

Minha tenra idade começou em tristeza:
e com enfermedidade e dor
Tu castigas o pecado,
até eu me tornar
assim, fino.
Contigo
deixa-me andar
e sentir neste dia tua vitória,
pois, se eu fincar minhas asas em ti,
a aflição vai impulsionar meu vôo em mim.

George Herbert (1593-1633)

 

 

Agora veja como fica muito melhor na língua original:

 

LORD, who createdst man in wealth and store,
Though foolishly he lost the same,
Decaying more and more,
Till he became
Most poor :
With thee
O let me rise
As larks, harmoniously,
And sing this day thy victories:
Then shall the fall further the flight in me.

My tender age in sorrow did beginne:
And still with sicknesses and shame
Thou didst so punish sinne,
That I became
Most thinne.
With thee
Let me combine,
And feel this day thy victorie,
For, if I imp my wing on thine,
Affliction shall advance the flight in me.

George Herbert (1593-1633)

Darrell Grayson: lamento por um poeta

Meu querido amigo Glauber estudou no Seminário de Campinas. Fomos contemporâneos lá pelo início da década de 1980. Músico admirável e mente brilhante, Glauber é um grande companheiro de papos teológicos, filosóficos, e muitas canções. Alma de flautista, cultivador da boa música clássica e de jazz, continua tocando e cantando. No início da década de 1990, foi para os Estados Unidos, casou-se com Henrieta e vive lá até hoje.

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Nos States, Glauber conheceu uma figura rara, um poeta condenado à morte. Quero compartilhar aqui seus registros sobre a perda de um amigo, de um grande amigo. Para os que quiserem conhecer o blog do Glauber, o endereço é: http://wsmusic.blogspot.com.

Hoje, há mais ou menos uma hora, meu amigo Darrell Grayson foi assassinado. Às 16h do dia 26 de julho de 2007, um oficial do estado de Alabama injetou nele três tipos diferentes de veneno. Três vezes morto — morto além da conta. As circunstâncias de sua vida e morte são muitas para que eu possa descrever agora, e são facilmente disponíveis na Internet. Darrell nasceu pobre e cresceu rodeado pela violência e pelo desespero. Em 1982 foi indiciado num crime terrível, representado por um advogado incompetente, condenado à morte, e viveu na fila de execução até hoje. Usando os pouquíssimos recursos que podia conseguir, ele superou a depressão, estudou sozinho, aprendeu a escrever poesia, publicou livros e tocou muitas vidas. Ele é uma inspiração para todos nós, e eu me considero abençoado por tê-lo conhecido um pouco. Cheguei em casa hoje, vindo do trabalho, no exato momento em que tudo se acabava. Tirei meu bandolim da caixa e toquei “Amazing Grace” tão alto quanto pude, em sua homenagem.

Até logo, Darrell!

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No dia seguinte, Glauber escreveu:

Darrell foi declarado morto às 16h16 CDT (2316 GMT) na prisão de Atmore prison. Um de seus amigos testemunhou sua morte. Sua última refeição foi queijo, omelete e tomates frescos. Sua última palavra foi: “paz”.

Agora ele se foi
Senhor, ele se foi
Como uma locomotiva
rolando pelo trilho
Ele se foi
Ele se foi
e nada vai fazê-lo voltar
Ele se foi
Para onde o vento não sopra tão estranho
Talvez em alguma montanha alta
Perdeu uma volta mas o preço não era nada
Faca nas costas e mais do mesmo
O mesmo velho rato no ralo do esgoto
Na encosta da montanha
Você sabe melhor mas eu o conheço
Agora ele se foi
Agora ele se foi
Como uma locomotiva
rolando pelo trilho
Ele se foi
Ele se foi
e nada pode trazê-lo de volta
Ele se foi….
(Robert Hunter)