somos um

Somos um, esse é o título do mais recente trabalho de Jorge Camargo. Um livro para ouvir; um CD para ler. São oito canções inspiradas no pensamento e na vida de oito figuras raras do cristianismo: Irineu de Lião, Agostinho, pseudo Dionísio Areopagita, Anselmo, Francisco de Assis, Tereza de Ávila, João da Cruz e Thomas Merton. Uma obra de grande sensibilidade, Somos um agrega arte, poesia, simplicidade e candura.

somos um

Eis uma das canções: “Mistério”

Quem tem todos os nomes
E ao mesmo tempo nome algum
Que em tudo põe limites
E cujo limite é nenhum
Quem vai além da oposição
Entre o que tem e não tem fim
Que sai em direção a tudo
E permanece em seu jardim

Acima de todo o saber
De todo o crer, toda razão
Além de toda a compreensão
De todo esforço sério
De toda a investigação
Eis que habita em nós,
Eis que habita em nós
Mistério

Tentar saber seu nome
É navegar na imensidão
Do mar que está dentro de si
É mergulhar no coração
E ao mesmo tempo se deixar
Sair além do próprio eu
Render-se por inteiro àquele
Que a alma insiste em chamar “Deus”

Acima de todo o saber
De todo o crer, toda razão
Além de toda a compreensão
De todo esforço sério
De toda a investigação
Eis que habita em nós,
Eis que habita em nós
Mistério

(Jorge Camargo)

Confira no site: www.jorgecamargo.com.br

a poda

No banquete final dos demônios, Murcegão pede a palavra, dá conselhos aos aprendizes todos e propõe um brinde. Em certa altura de seu discurso ele conta uma história:

Creio que você se lembram do que aconteceu quando um certo ditador dentre os gregos (naquele tempo ostentavam o nome de tiranos) enviou um embaixador a outro ditador vizinho para pedir-lhe lições a propósito de princípios de governo. O segundo ditador conduziu, então, o referido embaixador a um campo de cereais e pôs-se ali a decepar, com seu canivete, as pontas de todas as plantas que se salientassem sobre o nível das demais. A lição era demasiado objetiva. Queria ela dizer: não permita que nenhum de seus súditos se saliente. Não deixe ninguém viver que se mostre sábio, melhor, mais famoso ou mesmo mais insinuante do que a mediocridade geral. Nivele a todos os súditos de modo que fiquem perfeitamente iguais; todos escravos, todos nada mais do que meras cifras, todos verdadeiros ‘ninguéns’. Todos iguais.

(C.S. Lewis, Cartas do Inferno, p. 216-7)

a novidade

menino e pipa

Seguem os conselhos do tio Murcegão ao seu aprendiz de demônio:

O horror para com a mesma velha coisa é uma das obsessões mais vantajosas que temos suscitado no coração humano — sendo uma fonte inexaurível de heresias em religião, de insensatez nos parlamentos, de infidelidade na vida conjugal e de inconstância nas amizades. Os seres humanos existem no tempo e experimentam a realidade de modo sucessivo. Para experimentá-la de maneira abundante, eles têm de buscar muitas coisas diferentes; em outras palavras, têm de estar à cata de mudanças. E, uma vez que assim necessitam de mudança, o Inimigo (sendo hedonista como é), tornou-lhes prazeirosa essa experiência, embora não admita que tomem a mudança como fim em si mesma, como acontece, aliás, com o comer, por isso procurou equilibrar-lhes o gosto pela mudança com o reconhecimento do valor da permanência. O Inimigo tem envidado em satisfazer a ambos esses gostos no mundo que mediante a união da mudança com a permanência que designamos de ritmo. Ele lhes proporciona as estações, cada estação sendo diferente, não obstante, recorrendo todos os anos, de modo que a primavera pareça sempre uma novidade, embora não passe da repetição de um fato imemorial. Ele lhes outorga, através da Igreja, um ano espiritual; passam de um período de jejuns a um período de festas, mas é a mesma festa que antes existira.

Ora, exatamente como tomamos os prazeres relacionados com o comer e, pelo excesso, produzimos o vício da gulodice, também tomamos essa tendência natural para a adoção de mudanças e deturpâmo-la de modo que se degenera em exigência por novidades absolutas. Tal exigência é coisa de criação exclusivamente nossa. Se negligenciarmos os deveres, os homens terminarção não somente felizes, mas até mesmo extasiados, em face da novidade e familiaridade, ao mesmo tempo, da queda da neve na estação fria, do nascer e do pôr do sol pela manhã e à tarde de cada dia, e dos doces que constituem variedades de todo Natal. As crianças, até que as tornemos melhores para nós, sentir-se-ão perfeitamente felizes com uma recorrência de tipos de jogos e brincadeiras em que vemos os papagaios de papel a sucederem a outras distrações, consoante se trate da primavera, do verão, do outono ou do inverno. Devido tão somente a nossos esforços incessantes é que conseguimos fazer prevalecer a exigência no sentido da mudança indefinida e destituída de ritmo. Essa exigência nos é muito prestimosa por várias maneiras. Em primeiro lugar, ela diminui o prazer na mesma medida em que intensifica o desejo. O prazer da novidade, por sua própria natureza, fica mais exposto do que qualquer outro à lei da menor recompensa. E, a continuidade da novidade implica em dispêndio de recursos, de modo que o desejo correspondente concita à avareza e resulta em infelicidade, ou as duas coisas simultaneamente. E, ainda mais, quanto mais voraz se revelar esse desejo tanto mais cedo devorará todas as fontes inocentes de prazer, levando as vítimas a demandarem outros prazeres de entre os proibidos pelo Inimigo. Assim sendo, inflamando o horror para com a mesma velha coisa temos consgeuido fazer com que as artes, por exemplo, se venham tornando recentemente menos perigosas para nós do que foram em tempos idos, de modo que, tanto os artistas mais sérios como os menos sérios se vêem empolgados pela imposição de cada vez mais novos excessos nos domínios da lascívia, da insensatez, da crueldade e do orgulho. Finalmente, o desejo por novidades é indispensável, se é que temos de dar origem às modas e aos costumes em voga.

(C.S. Lewis, Cartas do Coisa Ruim, p. 156-9).

flor do cerrado

flor do cerrado

Eu vi nascer a flor do cerrado. Trata-se do mais belo trabalho já feito pelo músico cristão Carlinhos Veiga. O disco traz uma bela e ousada mescla de música cristã brasileira e música popular brasileira. “Rara flor”, de Carlinhos Veiga, é a mais singela e forte declaração de amor que alguém pode cantar. A “Canção para o Miguel” é de uma delicadeza, de uma ternura que só se encontra entre as flores mais raras do cerrado. Não há como ouvir “Poeira”, de Serafim Colombo Gomes e Luís Bonan, sem sentir o coração bater mais forte. Não há como não rir de alegria e surpresa ao ouvir esta versão de “Pagode em Brasília”, de Lourival dos Santos e Teddy Vieira.

Site do Carlinhos: http://www.carlinhosveiga.com.br/home.php

Blog do Carlinhos: http://carlinhosveiga.blogspot.com/

observador de igrejas

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Continuo em minha releitura do C.S. Lewis e estou agora lendo o Cartas do Coisa Ruim. Topei com este curioso parágrafo em que o tio Murcegão sugere que seu sobrinho aprendiz seja mais atento quanto ao vínculo que o seu “paciente” estabelece com a Igreja. Tome nota:

Em sua última carta, você fez uma referência casual ao fato de que o paciente tem continuado a freqüentar só uma igreja, tão somente uma, desde que se converteu e sente-se inteiramente satisfeito com ela. Permite-me perguntar-lhe o que está fazendo? Por que não me envia informações sobre as causas dessa fidelidade que o paciente revela para com a igreja local? Você já se apercebeu que, a menos que isso provenha de alguma atitude de indiferença, é uma coisa muito ruim para nós? Certamente você deve bem saber que se um indivíduo qualquer se mostra inveterado em sua freqüência à igreja, a melhor coisa que temos a fazer é conseguir que ele se ponha a percorrer as circunvizinhanças em busca de uma igreja que melhor lhe convenha e assim permaneça até que venha a se tornar um observador ou pessoa familiarizada com várias igrejas.

Os motivos são muito claros. Em primeiro lugar, a igreja local deve ser objeto de ataques constantes de nossa parte porque, sendo uma unidade local, e não de indivíduos que se sintam iguais, ela congrega pessoas de classes sociais diferentes e de traços psicológicos distintos de modo a tornar viável a espécie de unidade que o Inimigo requer. O princípio congregacional, por outro lado, faz com que cada igreja se torne um tipo de clube e, finalmente, se tudo decorrer em harmonia, um tipo de associação ou partido. Em segundo lugar, a busca de uma igreja que melhor convenha faz com que o indivíduo se torne um crítico, quando se sabe que o Inimigo o deseja como discípulo. O que o Inimigo requer do crente na igreja é uma atitude que pode, com efeito, ser crítica no sentido de rejeitar o que for falso ou inúvil, mas que é inteiramente destituída de espírito crítico no sentido de não fazer avaliações — não gastar tempo em reflexões a respeito do que se rejeita — senão abrir-se sem reservas, tornando-se humildemente receptivo aos vatores de nutrição espiritual que forem ministrados. (Você vê como o Inimigo se degrada, sem a necessária espiritualidade e quão irremidiavelmente vulgar Ele é!) Essa atitude, especialmente durante a entrega dos sermões, cria as condições (em sua maioria hostis para com toda maneira de agir que empregamos) nas quais noções absolutamente claras possam ser apreendidas por almas humanas. Dificilmente se encontrará um sermão ou um livro que se não mostre desastroso para nós quando os ouvintes se comportam assim. De maneira que eu o concito a que se esforce mais e mais no sentido de conseguir que esse bobo se ponha a percorrer as igrejas vizinhas assim que for possível. O relatório de suas atividades até esta data não nos tem proporcionado grande satisfação.

(C.S. Lewis, Cartas do Inferno, p. 105-6).

pastores e modelos

eugene-peterson.jpg

Eugene Peterson em entrevista à editora Eerdmans publicada em fevereiro de 2005:

Quando me tornei pastor, eu não sabia o que é ser pastor. Eu percebi que era uma vida muito complicada em que eu tinha de lidar não somente com o Pai, Filho e Espírito Santo, mas com almas preciosas da congregação. Mas quando olhei ao redor, parecia que muitos pastores do meu país tinham adotado a linguagem do mercado e dos empresários (despersonalizando as “almas” e transformando-as em consumidores ou clientes) e tornado os sociólogos e psicólogos seus mestres (desprezando o auxílio dos teólogos e dos artistas). Eles adaptaram a vocação pastoral para servir ao critério de sucesso tal qual é definido pela cultura norte-americana. Eu quis recuperar, para mim mesmo, as condições bíblicas e teológicas em que eu pudesse ser um pastor com integridade — e sendo um escritor, escrever era uma forma de descobrir e articular o que eu estava procurando. Escrevi meus livros antes de tudo para mim mesmo, tentando entender e viver em minha congregação o que notei que os pastores que me precederam haviam feito por 2.000 anos. Nesse processo, desenvolvi um senso de urgência e responsabilidade no sentido de resgatar o entendimento do que é vocação pastoral para meus irmãos e irmãs que pastoreiam.

paz e comunhão

Gente:

Encontrei esta gravação do Quarteto Vida cantanto “Paz e Comunhão” no II SOS Vida, em 1992. Compartilho:

 
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a lata do lixo

lixão

Aqui está uma versão alternativa da canção “A lata do lixo”. Trata-se de uma canção feita sob encomenda para o projeto “A Turma da Arca”, da editora Luz para o Caminho. Esta versão traz a belíssima voz da Gezilane de Sá.

A lata do lixo

Na lata do lixo a sujeira
Na cesta do lixo o papel
Na lata do lixo a besteira
O resto da sobra do mel
Na lata do lixo a madeira
No saco do lixo o metal
O resto da sobra da feira
O resto do reino animal
Na lata do lixo…

Em cima da mesa a comida
Em volta da mesa o irmão
Em cima da mesa a bebida
Em volta da mesa a canção
Em cima da mesa a toalha
Em volta da mesa o perdão
Em cima da mesa a migalha
Em volta o pedaço de pão
Em volta da mesa…

Em cima da terra a cidade
Em volta da terra o lixão
Em cima da terra avenida
Em volta da terra erosão
Em cima da terra calçada
Em volta da terra avião
Em cima da terra o esgoto
Em volta a revolta e o não
Em volta da terra…

 
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morcegos e burocratas

coisa ruim

Estou lendo Cartas do Coisa Ruim, de C.S. Lewis. No prefácio escrito em 1960 ele fala sobre diabo e inferno. Em certa altura ele diz:

Prefiro os morcegos aos burocratas. Vivo nesta época de administradores. Os maiores males já não são verificados naqueles sórdidos ‘antros de crimes’ que Dickens tanto gostava de descrever. Já não são verificados nem mesmo nos campos de concentração. Em tais campos, apenas temos a visão dos resultados decorrentes dos males que se praticam. A verdade, porém, é que os maiores males são concebidos e engendrados (acionados, secundados, efetuados e articulados em todas as suas minúcias) em escritórios bem limpos, atapetados, aquecidos e devidamente iluminados, através de homens de colarinho engomado, que têm unhas tratadas; estão sempre bem barbeados e nem mesmo precisam falar em voz alta. Disto resulta que, como é natural, os símbolos que adoto para falar sobre o inferno são oriundos da burocracia de um estado em que a polícia domina ou do ambiente característico dos escritórios de certos estabelecimentos comerciais horrivelmente imundos (C.S. Lewis, Cartas do Coisa Ruim, 10-11).

entrevista para a Cristianismo Criativo

Meus queridos amigos: segue uma entrevista concedida à revista virtual Cristianismo Criativo. Visitem o site: http://www.cristianismocriativo.com.br.

10 de January de 2008

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“Minha voz é apenas uma pequenina e desconcertada interferência neste grande debate sobre a realidade e a vida”. Esta fala, do professor, poeta e músico Gladir Cabral, inspira a poesia correndo em suas veias. Tendo a docência como ofício - já que Gladir é professor universitário na área de Literatura, o poeta-músico diz que tem a fé como seu “norte”, sua fonte de “inspiração”, e as festas bíblicas como pinceladas capazes de refletir a plenitude da vida. Leia, a seguir, a entrevista que ele concedeu ao Portal Cristianismo Criativo.

Cristianismo Criativo - Gostaria que vc falasse um pouco sobre você e seu trabalho… neste mundo pós-moderno, marcado por contrastes, rupturas, falta de tempo… o que inspira um poeta-músico?

Gladir Cabral - Meu trabalho é muito simples: propõe-se apenas a ouvir e responder a alguns poemas, canções e vozes no mundo conturbado em que vivemos. É claro, a voz primeira a ser ouvida e respondida é a própria Palavra de Deus, que traz respostas e perguntas inevitáveis nos dias de hoje. Mas há também as vozes dos poetas brasileiros, chilenos, argentinos, uruguaios. Violeta Parra cantou e Thiago de Mello respondeu: “Gracias a la vida”. Drummond perguntou: “E agora, José…” Chico Buarque, Gilberto Gil, Elomar cantam sobre o ser brasileiro. Vozes que chegam de todo canto do Brasil. Minha voz é apenas uma pequenina e desconcertada interferência neste grande debate sobre a realidade e a vida.

CC - Quando li a letra da sua canção “Dança de roda”, do CD Água no Deserto, percebi que você fala da ‘festa’ como quem fala das coisas simples da vida, que trazem alegria… me parece um paralelo bíblico sobre a plenitude da vida, como quem fala de Deus de uma forma não-religiosa…

GC - Sim, a metáfora da festa é muito valiosa nas Escrituras. O Velho Testamento é cheio de festas de caráter religioso, apontando para a redenção do povo, celebração da vida, salvação: festa das colheitas, festa páscoa, festa dos tabernáculos. O Novo Testamento traz Jesus começando seu ministério em Caná da Galiléia, numa festa de casamento. Gosto disso, de saber que nosso Deus é de alegria, de vida plena.

CC - Como um professor, com tantos compromissos acadêmicos, encontra tempo para dedicar-se à música e à poesia?

GC - A música é um canal de expressão e criação muito importante para mim. A poesia também, embora a poesia é também parte de meu ofício, já que sou professor de teoria literária e literatura. Música e poesia: canção — eis o veículo mais versátil que encontrei para exprimir as coisas que penso, sinto e desejo.

CC - Para você, quais são os poetas-músicos da contemporaneidade, pertencentes à Igreja (de forma geral) ou não?

GC - Já citei alguns poetas no início, mas há que acrescentar Quintana, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Adélia Prado. Entre os mais jovens intérpretes e compositores, lembro-me de Lenine, Jorge Drexler, Monica Salmaso. Entre os cristãos há muitos queridos amigos de caminhada e sonho: Stênio Marcius, Carlinhos Veiga, Tiago Vianna, João Alexandre, Josué, Jorge Camargo, Gerson Borges, Roberto Diamanso… Não há como lembrar de todos.

CC - Qual a música/poesia que você gostaria de dedicar aos nossos leitores?

GC - Há uma canção recente que quero compartilhar. Chama-se “Terra em Transe”, uma referência ao filme de Glauber e um questionamento quanto à nossa relação com a natureza. A canção ainda não foi gravada.

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Se era pra matar,
Por que deram os nomes aos bichos?
Se era pra cortar,
Por que tanto estudaram as plantas?

Se era pra revirar a terra
E cimentar o campo
Empacotar o vento
Plastificar o encanto

Se era pra morrer
De cansaço na beira do asfalto,
Se era pra esquecer
A beleza da água no salto,

Se era pra derramar o vinho
E semear o pranto
Emudecer o pinho
E sufocar o canto

Se era pra perder
Por que foram buscar a esperança?
Se era pra correr
Por que foi que chamaram pra dança?

Se era pra desejar o muito
E usufruir o pouco,
Acalentar o intento
E acabar tão inerte e louco

Se era pra não ser
E evitar a questão do poeta
Se era só pra ter
E virar um produto em oferta

Se era pra ver a Terra em transe
A calçada cobrindo o mangue
A mata vazando sangue
E a cobiça fazendo a festa

Não é para responder
É apenas para se repensar
E quem sabe recomeçar
Replantar / Refazer

CC - Como a fé influencia sua arte?

GC - A fé é o norte, a fonte de inspiração de minhas canções. Só se faz canção quando se tem esperança, seja pelo menos de ressonância. E a nossa fé cristã é fundamentada na esperança, como nos ensinam as Escrituras. Essa esperança aparece em cada canção, às vezes é apenas uma referência discreta, como em “Terra em Transe”, às vezes é declaração explícita, como em “Fina Esperança”, uma velha canção gravada em 1996.

CC - Na sua opinião, qual o papel da arte na Igreja?

GC - No contexto da Igreja, a arte preenche várias funções, tanto na adoração, no louvor, quanto na edificação, na vida devocional, na atuação da Igreja, na evangelização, na vocação profética da comunidade cristã, na denuncia do mal, do erro, na proclamação de uma palavra de Deus para os tempos atuais, no exercício do lamento, que também tem seu lugar em nossa vida cristã.

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CC - O jornalista Steve Turner, autor do livro “Cristianismo Criativo?” (W4 Editora), afirma que “muitos se envolvem no exercício da arte porque desejam melhorar a qualidade de vida das pessoas”. Você concorda com esta afirmação? poderia comentá-la?

GC - Sem dúvida, evangelho é vida em abundância, vida plena, e isso tem tudo a ver com qualidade de vida. Todos os que compreendem o evangelho como uma mensagem de redenção que envolve todas as áreas da vida humana sabem que precisamos desenvolver temas não apenas diretamente religiosos, mas sociais, históricos, políticos, humanos, enfim.

CC - Você acredita que a arte seja uma forma de alcançar as pessoas para o Evangelho?

GC - Também, mas não só. Arte não é só evangelização. É também celebração, edificação, aprendizado, profecia, criticidade, lamento, compartilhamento, declaração de amor e de fé.

CC - Como podemos influenciar a Igreja, saindo do lugar-comum?

GC - Ouvindo mais o que o povo fala, ouvindo os poetas do povo, ouvindo as canções, as danças do povo, e respondendo adequadamente, com paciência, humildade, carinho e respeito.

CC - Bem, agradeço muitíssimo pela entrevista. Obrigada por participar do Portal Cristianismo Criativo.

GC - Eu é que agradeço pela oportunidade de participar.