trabalha, poeta (Silvestre Kuhlmann)

Tenho ouvido ultimamente as canções do compositor, arranjador e poeta Silvestre Kuhlmann. Eis aqui uma de suas preciosidades.

Sem meias palavras,
Semeia a palavra,
Cultiva a boa semente;
Espalha por este solo da Terra
Poemas.

A pena, a peneira, a pepita,
Garimpa, lapida;
Descobre o tesouro,
Cava com a pá.

Provoca o vocabulário,
Bulindo no vocabulário;
Burla o sentido, faz o belo.
Elabora, labora.

Procura a cura no verso.
Emoção, reação adversa;
É perverso ver o mundo
Sem teu olhar, poeta.

Se te moves, poeta,
Comoves;
Poeta, não te acomodes
Nas cavernas da melancolia.

(Silvestre Kuhlmann)

sinfonia do perdão (Jorge Camargo)

Isso aconteceu no final de 2006. O tempo passa, mas ainda ressoa a beleza desta humana sinfonia.

Na última terça-feira (21/11), minha mãe Vanira, levantou mais cedo que de costume.

Sentou na cadeira da sala de jantar e puxou uma conversa leve e descompromissada com meu pai. Surpreso com sua presença inesperada, seu Jorge, o “preto” como era carinhosamente chamado por ela, esticou o bate-papo.

Minutos depois, ela reclamou de uma dor no peito e foi se deitar.Ele a acompanhou.

Ao lado da cama, a frase inesperada: “Preto, me perdoe. Me perdoe pelas palavras ásperas e pelas dores que lhe causei nesses anos juntos(quarenta e seis, pra ser mais exato).

“Eu é que te peço perdão!”, ele respondeu.

Foram as últimas palavras de minha mãe.

Naquele quarto apertado de uma casa pequena e simples perdida na periferia da grande cidade uma obra de rara beleza foi executada.O tema? A Sinfonia do Perdão.

Aqui nesse mundinho fétido, apenas dois seres que se amaram e que foram cúmplices e parceiros de vida ouviram-na em todaa sua exuberância.

No céu, míriades de anjos e Seu Grande Compositor testemunharam-na.

Minhas lágrimas apenas captaram o eco de seus últimos acordes e registraram-na em minha alma como a mais linda obra musical que eu ouvi em toda a minha vida.

por Jorge Camargo

de bem com Deus (Roberto Diamanso)

Esta é outra canção concentrada e em estado puro de diamante de Roberto Diamanso. Todos que o conhecem sabem muito bem que certas canções destilam em sua alma gota a gota, palavra a palavra, letra a letra.

Eu tô de bem com meu Deus
Que te mandou um abraço;
Vem fazer uso do espaço
Lá do esquerdo do meu peito.

Aqui está a igreja;
Eu adoro olhando as imagens
Que cantam, dançam e pegam
Que eu até me peguei:
Como de mim são iguais?
Semelhantes são as tais
Com o Artesão que as fez.

Não há “primos inter pares”
O Primeiro entre os irmãos
Está à direita do Pai
E é tão bem vindo entre nós
Lembrado ao partir do pão
Fala aos que aqui estão
Ávidos para ouvir Sua voz.

(Canção de Roberto Diamanso)

uma canção nova

Despedida

Se um dia você viajar pra Goiás
E passar a porteira dos campos gerais
Não se avexe e ande um pouco mais
E será bem-vindo em meus quintais
Com violas, cantorias.

E se um dia você for ao Sul do Brasil
E for tempo de inverno ou dia de frio,
Provará o nosso chimarrão,
Ouvirá, quem sabe, uma canção
E haverá entre nós comunhão.

Contaremos muitos causos,
Lendas do sertão,
Partiremos sobre a mesa
Frutos deste chão,
Levaremos na algibeira
A recordação de um tempo tão bom.

Se a distância um dia se estender entre nós
E deixar-nos mudos, pensativos e sós,
Os caminhos é que falarão
Dos amigos que sempre serão,
Pela fé, companheiros e irmãos.

campo branco (elomar)


Cada vez que ouço esta canção, minha alma se inspira, sonha, canta, chora, lamenta e louva. Viva o grande poeta Elomar.

Campo Branco minhas penas que pena secou
Todo bem qui nóis tinha era a chuva era o amor
Num tem nada não nóis dois vai penano assim
Campo lindo ai qui tempo ruim
Tu sem chuva e a tristeza em mim

Peço a Deus grande Deus de Abraão
Prá arrancar as pena do meu coração
Dessa terra sêca en ança e aflição
Todo bem é de Deus qui vem
Quem tem bem lôva Deus seu bem
Quem não tem pede a Deus qui vem

Pela sombra do vale do ri Gavião
Os rebanho esperam a trovoada chover
Num tem nada não também no meu coração
Vô ter relempo e trovão
Minh’alma vai florescer

Quando a amada e esperada trovoada chegá
Iantes da quadra as marrã vão tê
Sei qui inda vô vê marrã parí sem querê
Amanhã no amanhecer
Tardã mais sei qui vô ter
Meu dia inda vai nascer

E essa tempo da vinda tá perto de vín
Sete casca aruêra cantaram prá mim
Tatarena vai rodá vai botá fulô
Marela de u’a veis só
Pra ela de u’a veis só

Glossário

Campo Branco: Tradução de Caatinga, expressão indígena
Ança: Ânsia
Iantes das quadra asmarrã vão ter: Antes do ciclo biológico das cabras, elas vão parir
E esse tempo da vinda tá perto de vim: Expressão bíblica, derivada da profecia:
os tempos da ressurreição estão próximos.
Sete casca aruêra:Árvore medicinal
Tatarena: Árvore que se abre em flor, anunciadora da chuva


A Pedra de Amolar

Aquele que comigo, quando eu choro, chora
Aquele que comigo dança,
A este jamais direi:
Ora, não me amolesPorque se como o ferro com ferro se afia
Afia o homem a seu amigo
Isto hoje te digo:
Podes me amolar!Ó Deus, dá que quando entre eu e meu amigo
Houver atrito a ponto de sair faísca de fogo
Que eu não me desaponte porque esse tal
É enviado teu pra que eu não fique cego

Porque cego não vê que sem o esmeril
Se perde o fio, o gume
Quem pode perceber,
não perde a comunhão, assume
Estende a mão, aceita
A pedra de amolar

(um poema do Roberto Diamanso)

um poema de drummond

Amar
(Carlos Drummond de Andrade)

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

para os céticos


“Deus se revela no livro da natureza, pois Ele é seu autor. Mesmo assim, só compreendemos esse livro se tivermos a necessária iluminação espiritual. Sem reverência e percepção, erramos a direção. Não podemos julgar a confiabilidade de nenhum livro simplesmente ao lê-lo. Agnósticos e céticos, por exemplo, só acham defeitos a invés de perfeição. Os céticos dizem: ‘Se há um criator todo-poderoso, por que há furacões, terremotos, dor, sofrimento, morte, etc.?’. É como criticar um edifício que ainda não foi terminado ou um quadro que ainda não foi acabado. Quando o vermos plenamente completo, ficaremos embaraçados por nossa precipitação e louvaremos a habilidade do artista. Deus não deu ao mundo sua forma atual em um único dia nem deixará perfeito em um único dia. A criação inteira move-se em direção à sua plenitude, e veremos o mundo com os olhos de Deus, movendo-se em direção ao que é perfeito, sem falta ou defeito, então nos prostraremos humildemente diante do nosso criador e diremos: ‘Isso é muito bom’”

(Sadhu Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 55).

tertuliano

“Embora tenhamos uma tesouraria, ela não guarda dinheiro vindo de compra e venda, como se a religião tivesse seu preço. Uma vez por mês, expontaneamente, cada um coloca ali uma pequena doação; mas apenas de livre vontade, e apenas segundo suas possibilidades; pois não há compulsão; tudo é voluntário. Esses dons são como fundos e depósitos da piedade. Pois eles não foram colocados lá para serem gastos em festas, bebidas e banquetes, mas para assistir e sepultar os pobres, suprir as necessidades de meninos e meninas que perderam seus pais e seus bens materiais, de pessoas idosas que já não podem sair de casa; bem como socorrer os que sofreram naufrágio; e se acaso alguém estiver nas minas em trabalhos forçados, ter sido banido para as ilhas ou estiver na prisão por causa de sua fidelidade à causa da Igreja de Deus, essas ofertas se tornam o sustento de sua confissão”

(Tertuliano, Apologia, 160-230 A.D.).

dança de roda

Bem melhor do que navegar sozinho
Bem melhor do que caminhar sem par
Muito mais do que só se olhar no espelho
Ou ver a própria sombra…

Pega a sanfona, traz a viola, toca a rabeca (olerê)
Chama os tambores e os tocadores pra nossa festa (olará)
Faz uma fogueira, planta uma bandeira, canta a noite inteira (aiá)
Convida todos os ritimistas para a calçada (olerê)
Pega as estrelas, põe nas soleiras da madrugada (olará)
Dança moçambique, dança marujada, dança de congada (aiá)

Uma parte da vida é suor e pão
Outra parte é pandeiro e celebração
Tudo tão bom
Se a mão de quem planta puder colher

Ir além dos limites do próprio corpo
Por o pé nas fronteiras do nosso chão
Palmo a palmo, alcançar com algum esforço
O esboço de outra palma

Ver o riso pousado em cada rosto
Ter o gosto de reaprender a andar
Como quem sabe caminhar dançando
Ao toque da viola

Viva a alforria! Viva a alegria! Viva a fartura! (olerê)
Que haja folia e cantoria, que haja procura (olará)
De uma dança nova, de um casa nova, de uma vida nova (aiá)
Dança de roda, dança de rua, dança de novo (olerê)
Festa de maio, festa de negro, festa do povo (olará)
Canta a novidade, canta de verdade, canta a liberdade (aiá)

É que a vida floresce nos pedregais
E renova a florada dos matagais
Belos sinais
Da chegada certeira de um tempo bom

(Canção que faz parte do meu próximo CD: Água no Deserto)